ASCO 2022

Todo ano no mês de junho ocorre em Chicago nos Estados Unidos o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO). E maior congresso de oncologia do mundo. 
E um evento muito esperado pela comunidade cientifica, pelos médicos e pacientes, pois nele são apresentados tratamentos que mudam a pratica no dia a dia. 

Separei alguns dos artigos que achei relevante para o público e que vão impactar no tratamento dos pacientes. 

O primeiro que já foi comentado na mídia foi sobre o uso de imunoterapia (clique aqui) no câncer de reto. 
Esse estudo incluiu pacientes que apresentam deficiência das enzimas de reparo de DNA, que são grupos de proteínas capazes de corrigir erros na multiplicação do DNA. Já é sabido que essa deficiência já pode gerar a excelentes respostas a imunoterapia. 

O estudo em questão avaliou 12 pacientes com tumores localmente avançado, sem metástases, com deficiência das enzimas de reparo, para receberem imunoterapia com a droga antiPD-1 chamado dostarlimab. 

Os resultados foram bastante impressionantes, após 6 meses do tratamento, os pacientes não apresentavam tumor remanescente e não precisaram ser submetidos ao tratamento padrão com quimioradioterapia e cirurgia. 

Vale ressaltar que apenas de 5 a 10% do total dos pacientes com câncer de reto apresentam deficiências das proteínas de reparo. 

Os resultados são muito animadores e promissores, mas ainda é considerado experimental. Esses pacientes ainda serão acompanhados por mais tempo para avaliar se realmente estão em remissão completa de doença através de colonoscopias com biopsias e exames de PET-TC. E, em casos de recidiva poderão ser resgatados com o tratamento convencional relatado acima.  A medicação ainda não é aprovada no Brasil pela Anvisa com essa finalidade. 

Ref. N Engl J Med 2022; 386:2363-2376 DOI: 10.1056/NEJMoa2201445

O segundo estudo também muito aclamado e que veio mudar o tratamento do câncer de mama foi o Destiny-Breast04. 

Basicamente existem três subtipos de neoplasia mamaria 

  • Receptor hormonal positivo – que expressam receptores hormonais em sua superfície
  • Tumores que expressam a proteína HER-2, que leva ao crescimento tumor. Essa expressão pode ser fraca (1+ ou 2+) ou forte (3+), determinados pelo exame de imunohistoquimica. 
  • E os chamados triplo negativos, que não expressam nenhuma delas. 

Para os fortes expressores de Her-2 temos terapias consolidadas e eficazes, como trastuzumab, pertuzumab, TDM-1, Trastuzumab Deruxtecan, entre outras. 

O Trastuzumab Deruxtecan é uma quimioterapia conjugada a um anticorpo e já é aprovado para câncer de mama HER-2 3+ com resultados bastante robustos (clique aqui). No Destiny-Breast04 foi avaliada a eficácia da droga para tumores fracamente expressores, que até então eram tratados apenas com quimioterapia convencional. 

Os resultados foram bastante impressionantes. O estudo incluiu 557 pacientes com câncer de mama metastático com baixa expressão de HER2. Em comparação com a quimioterapia os pacientes que fizeram uso do trastuzumab deruxtecan apresentaram redução do risco de progressão em 49% e 36% no risco de mortalidade. Esse grupo também apresentou maior sobrevida de 10.1 meses vs 5.4 meses.  

A droga foi bem tolerada, mas deve-se monitorar pneumonite (inflamação dos pulmões). 

O estudo foi recebido com muito entusiasmo e a droga deve receber indicação pelas agências regulatórias muito em breve. 

REf. DOI: 10.1056/NEJMoa2203690

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O terceiro estudo trouxe o futuro para pratica clínica, o uso de biópsia liquida para indicação de quimioterapia adjuvante no câncer de colón estadio II. 

Através da coleta de sangue é possível realizar a biópsia liquida. O exame detecta a presença de DNA tumoral circulante no sangue. Já vinha sendo muito pesquisada em ensaios pré clínicos, mas foi o primeiro estudo que avaliou para auxiliar na indicação de quimioterapia. 

No estudo DYNAMIC, pacientes portadores de câncer de intestino em estadio II (acometimento somente no intestino) eram operados e após a cirurgia eram submetidos a biopsia liquida para identificar os potenciais candidatos a quimioterapia adjuvante (quimioterapia que é feita após a cirurgia para evitar recaídas e aumentar a taxas de cura). 
Até o momento, essa decisão vem sendo tomada por fatores da biopsia da cirurgia, o que pode levar a pacientes que não precisaram a fazer quimioterapia.  A biopsia liquida pode ajudar a refinar essa decisão. 

O estudo mostrou que a estratégia reduziu a indicação de quimioterapia de 28% para 15%.

No braço do estudo que usou a biópsia liquida como definidora do tratamento, 92% dos pacientes encontravam-se vivos e sem evidencia de câncer em 3 anos, da mesma forma que os pacientes avaliados da forma padronizada.

O estudo foi considerado uma mudança no tratamento de câncer de intestino estadio II, podendo auxiliar a guiar a melhor a seleção de quem realmente precisa de e quem pode evita-la. 

Mais estudos vêm sendo conduzidos nesse sentido e aguardamos a padronização, acesso aos testes e cobertura pelos planos de saúde no Brasil.  

Ref. N Engl J Med 2022; 386:2261-2272 DOI: 10.1056/NEJMoa2200075